Aparência
Manual de Competências Médicas e Fluxo Assistencial — Pronto Socorro Infantil
Documento institucional do HUSE — Pediatria.
- Finalidade
- Natureza do Serviço
- Arquitetura Assistencial do PSI
- Competências Assistenciais
- Fluxo Assistencial do Paciente Pediátrico
- Situações Específicas
- Registro Assistencial e Segurança do Paciente
- Referências
- Histórico de Revisão
1. Finalidade
O presente Manual tem por finalidade consolidar, organizar e padronizar as atribuições médicas, critérios assistenciais, fluxos operacionais e a arquitetura funcional do Pronto Socorro Infantil (PSI) do Hospital de Urgência de Sergipe – HUSE.
Este documento integra instrumentos previamente existentes, reunindo-os em um único instrumento estruturante de governança clínica, destinado a orientar a prática assistencial, promover segurança do paciente e reduzir ambiguidades operacionais.
São objetivos deste Manual:
- Padronizar condutas médicas assistenciais;
- Definir papéis e responsabilidades de forma explícita;
- Estruturar a cadeia de comando assistencial;
- Organizar os fluxos de regulação de entrada e saída de pacientes;
- Promover segurança do paciente;
- Alinhar o serviço às normativas sanitárias e éticas vigentes;
- Reduzir zonas de ambiguidade funcional.
A lógica assistencial adotada no PSI baseia-se no ciclo contínuo:
AVALIAR → IDENTIFICAR → INTERVIR
2. Natureza do Serviço
O Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE) é hospital de referência estadual para atendimento de alta complexidade, não se caracterizando como unidade de porta aberta para demanda espontânea, exceto em situações excepcionais de emergência sem possibilidade de regulação prévia.
A admissão de pacientes no PSI ocorre preferencialmente por meio de regulação formal, observando os fluxos assistenciais instituídos pela Rede Estadual de Urgência e Emergência.
O Pronto Socorro Infantil constitui serviço de alta complexidade pediátrica, destinado a:
- estabilização clínica;
- manejo inicial de condições graves ou potencialmente graves;
- definição de destino assistencial adequado.
3. Arquitetura Assistencial do PSI
A organização funcional do PSI estrutura-se em seis eixos assistenciais, definidos de acordo com a gravidade clínica e a natureza do cuidado prestado.
3.1 Eixo Técnico-Assistencial – Médico Regulador
Responsável pela regulação da entrada de pacientes no PSI e pela articulação com os sistemas formais de regulação assistencial.
Dimensionamento: 01 médico regulador por turno.
3.2 Eixo Crítico – Área Vermelha
Destinado ao atendimento imediato de crianças em risco iminente de morte ou deterioração clínica grave.
Dimensionamento: 03 médicos plantonistas por turno.
3.3 Eixo Intermediário – Área Amarela
Destinado ao atendimento de pacientes potencialmente graves, em observação ou em fase inicial de estabilização clínica.
Dimensionamento: 01 médico plantonista por turno.
3.4 Eixo de Cuidados Prolongados – Unidade de Cuidados Prolongados (UCP) / Ala Carinho
Destinado a pacientes com estabilidade clínica relativa, porém com necessidade de monitorização contínua e suporte assistencial especializado.
Dimensionamento: 01 médico plantonista por turno.
3.5 Eixo Transversal – Médico de Intercorrências
Profissional responsável pelo atendimento imediato de eventos clínicos agudos ocorridos fora das áreas críticas do PSI, incluindo:
- enfermarias pediátricas;
- Ala P;
- Unidade de Tratamento de Queimados (UTQ);
- Centro Cirúrgico;
- criança de até 12 anos admitida na Área Vermelha Adulta.
Dimensionamento: 01 médico plantonista por turno.
3.6 Eixo Horizontal – Médico Diarista
Responsável pelo acompanhamento longitudinal dos pacientes internados, garantindo continuidade assistencial, organização terapêutica e articulação multiprofissional.
A atuação do médico diarista ocorre nas seguintes áreas:
- Área Vermelha;
- Área Amarela;
- Unidade de Cuidados Prolongados.
O quantitativo e a distribuição dos profissionais serão definidos conforme dimensionamento assistencial institucional.
4. Competências Assistenciais
4.1 Médico Regulador
Compete ao médico regulador:
- Realizar a regulação médica de pacientes pediátricos classificados como vermelho ou amarelo, em articulação com a Central de Regulação de Urgência (CRU);
- Realizar triagem médica de pacientes que eventualmente cheguem ao HUSE por demanda espontânea;
- Realizar admissão de pacientes provenientes de outras unidades hospitalares devidamente regulados;
- Realizar admissão de pacientes regulados via NIR para realização de exames ou avaliação especializada;
- Avaliar solicitações de transferência inter-hospitalar;
- Verificar adequação do perfil assistencial do paciente ao serviço;
- Confirmar disponibilidade de vaga junto ao médico responsável pela área assistencial;
- Formalizar aceite ou negativa de admissão, com registro fundamentado;
- Definir prioridade assistencial de entrada;
- Organizar preparo da vaga e mobilização da equipe assistencial;
- Registrar formalmente a decisão regulatória;
- Preencher Livro de Ocorrências, registrando:
- equipe médica presente no início do plantão;
- equipe assistencial presente no início do plantão;
- ocorrências, incluindo admissões, intercorrências, problemas estruturais e operacionais, entre outras.
Importante: a decisão regulatória não se confunde com a decisão assistencial, a qual é responsabilidade do médico assistente da área correspondente.
4.2 Plantonistas da Área Vermelha
Compete aos médicos plantonistas da Área Vermelha:
- Realizar atendimento inicial e estabilização de pacientes classificados como vermelhos;
- Coordenar o cuidado clínico no eixo crítico do PSI;
- Realizar evolução médica por turno, diurno e noturno;
- Realizar evolução após intervenções terapêuticas ou na vigência de alterações clínicas;
- Solicitar e interpretar exames complementares;
- Acionar especialistas quando indicado;
- Solicitar vaga em UTIP quando necessário;
- Formalizar internação hospitalar;
- Realizar reavaliações clínicas seriadas;
- Executar procedimentos emergenciais quando indicados;
- Comunicar o NIR sobre necessidade de internação ou transferência;
- Garantir assistência contínua durante seu turno, responder às intercorrências, executar e ajustar o plano terapêutico sempre que necessário.
Em situações excepcionais de desfalque na escala do médico de intercorrências, devem atender deteriorações clínicas em outros setores:
- Ala P;
- UTQ;
- Centro Cirúrgico;
- Área Vermelha Adulta, em pacientes com até 12 anos.
A Área Vermelha possui prioridade assistencial absoluta.
4.3 Plantonista da Área Amarela
Compete ao plantonista da Área Amarela:
- Realizar atendimento inicial e acompanhamento clínico dos pacientes em observação ou internados na unidade;
- Identificar e manejar intercorrências clínicas;
- Avaliar resultados de exames complementares;
- Definir destino assistencial do paciente;
- Comunicar o NIR quando houver indicação de transferência;
- Organizar o fluxo assistencial da área;
- Apresentar-se como Médico da Área Amarela para a equipe assistencial no início de cada turno.
4.4 Médico Plantonista da UCP – Ala Carinho
Compete ao médico plantonista da UCP:
- Realizar acompanhamento clínico dos pacientes internados na unidade;
- Identificar e manejar intercorrências clínicas;
- Avaliar necessidade de monitorização contínua;
- Articular condutas com o médico diarista responsável;
- Apresentar-se como Médico da UCP para a equipe assistencial no início de cada turno.
Em situações excepcionais de desfalque na escala do médico de intercorrências, deve atender de maneira imediata deteriorações clínicas no internamento pediátrico, além da própria UCP.
A UCP não substitui a Área Vermelha nem a Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica.
Se necessária transferência, preencher DUSV.
4.5 Médico de Intercorrências
Compete ao médico de intercorrências:
- Atender deteriorações clínicas fora das áreas críticas do PSI;
- Atuar nas seguintes áreas assistenciais:
- enfermarias pediátricas;
- Ala P;
- Unidade de Tratamento de Queimados;
- Centro Cirúrgico;
- Área Vermelha Adulto para pacientes de até 12 anos;
- Conduzir atendimento inicial de parada cardiorrespiratória fora do eixo crítico;
- Realizar estabilização clínica até chegada do médico assistente;
- Transportar pacientes instáveis para exames quando necessário;
- Prestar suporte assistencial às áreas do PSI em situações de alta demanda;
- Registrar formalmente as intercorrências atendidas;
- Apresentar-se como Médico de Intercorrências para a equipe assistencial no início de cada turno.
Este profissional não substitui o seguimento longitudinal do paciente, que permanece sob responsabilidade do médico assistente.
Se durante o atendimento identificar necessidade de transferência para cuidado crítico, preencher DUSV.
4.6 Médico Diarista
O médico diarista é responsável pelo acompanhamento longitudinal dos pacientes internados, assegurando continuidade assistencial e organização do cuidado.
Compete ao médico diarista:
- Realizar evolução clínica diária estruturada;
- Definir e revisar o plano terapêutico;
- Promover discussão multiprofissional dos casos;
- Planejar alta hospitalar;
- Realizar comunicação estruturada com familiares;
- Garantir registro completo em prontuário;
- Articular acompanhamento com especialistas.
Cabe ao médico diarista a condução eletiva do caso clínico até alta hospitalar ou transferência assistencial.
5. Fluxo Assistencial do Paciente Pediátrico no PSI
O atendimento da criança no Pronto Socorro Infantil segue fluxo assistencial estruturado, baseado em avaliação clínica sistematizada, classificação de gravidade e definição do destino assistencial adequado.
A condução assistencial deverá respeitar o ciclo:
AVALIAR → IDENTIFICAR → INTERVIR
Reavaliações sucessivas devem ocorrer sempre que houver mudança do estado clínico ou após qualquer intervenção terapêutica.
5.1 Avaliação Inicial da Criança Grave – Triângulo de Avaliação Pediátrica
A avaliação inicial deve ser realizada por meio do Triângulo de Avaliação Pediátrica (Pediatric Assessment Triangle – PAT), método rápido de identificação de gravidade clínica baseado em três parâmetros observacionais:
1. Aparência geral
- nível de consciência;
- interação com o ambiente;
- tônus muscular;
- consolabilidade.
2. Trabalho respiratório
- esforço respiratório;
- tiragens;
- batimento de asas nasais;
- estridor ou gemência;
- uso de musculatura acessória.
3. Circulação da pele
- palidez;
- cianose;
- moteamento;
- perfusão periférica.
Alterações significativas em qualquer um desses componentes indicam risco de instabilidade clínica, devendo o paciente ser imediatamente classificado como prioridade máxima de atendimento na Área Vermelha.
5.2 Avaliação Primária – ABCDE
Após a avaliação inicial, deve-se proceder à avaliação primária estruturada, seguindo o método ABCDE.
A – Airway (Via Aérea)
Avaliar:
- permeabilidade das vias aéreas;
- presença de obstrução;
- necessidade de proteção cervical;
- presença de secreções ou corpo estranho.
Intervenções devem ser realizadas imediatamente quando necessário.
B – Breathing (Respiração)
Avaliar:
- frequência respiratória;
- simetria da expansibilidade torácica;
- presença de tiragens;
- ruídos respiratórios patológicos;
- saturação de oxigênio;
- sinais de fadiga respiratória.
C – Circulation (Circulação)
Avaliar:
- perfusão periférica;
- tempo de enchimento capilar;
- pulsos centrais e periféricos;
- frequência cardíaca;
- pressão arterial;
- sinais de choque.
D – Disability (Avaliação Neurológica)
Avaliar:
- nível de consciência;
- Escala de Coma de Glasgow adaptada para pediatria;
- resposta pupilar;
- presença de déficits neurológicos focais;
- movimentação espontânea dos membros;
- DEXTRO – glicemia capilar.
E – Exposure (Exposição)
Avaliar:
- lesões traumáticas;
- hematomas;
- petéquias;
- sinais de infecção;
- deformidades;
- distensão abdominal;
- temperatura.
Durante essa etapa, devem ser adotadas medidas de prevenção de hipotermia.
Instabilidade identificada nos componentes A, B ou C caracteriza gravidade imediata, exigindo intervenção urgente.
Após cada intervenção, conforme progride em sua avaliação, é importante reavaliar o ABC.
5.3 Avaliação Secundária
Após estabilização inicial, procede-se à avaliação secundária, com coleta sistematizada de história clínica e exame físico completo.
Utiliza-se o mnemônico SAMPLE:
- S – Sinais e sintomas
- A – Alergias
- M – Medicamentos em uso
- P – Passado médico relevante
- L – Última ingestão alimentar ou hídrica
- E – Eventos desencadeadores
Deve ser realizado exame físico completo, incluindo inspeção detalhada de todos os sistemas.
Em casos de trauma, considerar rolamento em bloco, quando indicado.
5.4 Avaliação Terciária
A avaliação terciária consiste na complementação diagnóstica e reavaliação sistemática do paciente, podendo incluir:
- gasometria arterial ou venosa com lactato;
- hemograma e coagulograma;
- exames laboratoriais adicionais conforme indicação;
- exames de imagem direcionados, desde que haja estabilidade clínica para realização.
A reavaliação seriada do paciente é obrigatória, especialmente após intervenções terapêuticas.
Fluxo Resumido da Avaliação Pediátrica
text
Triângulo de Avaliação Pediátrica — PAT
↓
Avaliação Primária
ABCDE
↓
Avaliação Secundária
SAMPLE + Exame Físico
↓
Avaliação Terciária
Laboratório + Imagem dirigida
↓
REAVALIAR
↺
após intervenção ou
alteração clínica6. Situações Específicas
6.1 Politrauma Grave
Considera-se politrauma grave quando houver:
- lesão envolvendo dois ou mais sistemas orgânicos associada à instabilidade clínica; ou
- mecanismo de trauma de alta energia, com elevado risco de deterioração clínica.
6.2 Critérios de Gravidade no Trauma Pediátrico
São considerados critérios de gravidade:
- instabilidade hemodinâmica;
- necessidade de via aérea avançada;
- Escala de Coma de Glasgow < 13;
- trauma penetrante;
- ejeção veicular;
- queda superior a duas vezes a altura da criança;
- suspeita de hemorragia interna;
- indicação cirúrgica imediata.
6.3 Conduta
Nos casos de politrauma grave:
o cirurgião geral deve ser acionado imediatamente;
a condução do caso deverá ocorrer de forma conjunta entre pediatria e cirurgia, podendo incluir:
- encaminhamento imediato ao Centro Cirúrgico;
- solicitação prioritária de exames laboratoriais;
- realização de exames de imagem;
- acionamento de especialidades cirúrgicas, como ortopedia, neurocirurgia, entre outras;
- solicitação de vaga em UTIP, quando indicada.
7. Registro Assistencial e Segurança do Paciente
Constituem obrigações assistenciais no PSI:
- registro de evolução médica estruturada em prontuário;
- registro formal de interconsultas;
- realização de passagem de plantão estruturada;
- controle de tempo de uso e registro de dispositivos invasivos;
- preenchimento adequado de AIH, DUSV e demais documentos institucionais;
- observância às normas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Tabela de Sinais Vitais por Faixa Etária
Para referência rápida na triagem e avaliação inicial do paciente pediátrico, consulte:
→ Sinais Vitais por Faixa Etária
A tabela inclui valores de referência para:
- frequência cardíaca;
- frequência respiratória;
- pressão arterial sistólica mínima aceitável;
- pressão arterial média;
- saturação periférica de oxigênio;
- temperatura;
- pressão arterial sistólica mínima aceitável para choque conforme PALS/AHA.
8. Referências
AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. Advanced trauma life support (ATLS): student course manual. 10. ed. Chicago: ACS, 2018.
AMERICAN HEART ASSOCIATION. Pediatric advanced life support (PALS): provider manual. Dallas: AHA, 2020.
ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA. Diretrizes e competências do médico intensivista. São Paulo: AMIB. Disponível em: https://www.amib.org.br. Acesso em: 10 mar. 2026.
BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Resolução nº 1.638/2002.
BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Resolução nº 2.077/2014.
BRASIL. Lei nº 8.069/1990. Estatuto da Criança e do Adolescente.
BRASIL. Lei nº 13.709/2018. Lei Geral de Proteção de Dados.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 529/2013.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.048/2002.
BRASIL. ANVISA. RDC nº 7/2010.
BRASIL. ANVISA. RDC nº 36/2013.
BRASIL. ANVISA. RDC nº 63/2011.
SCHLAPBACH, L. J. et al. International consensus criteria for pediatric sepsis and septic shock (Phoenix criteria). JAMA, 2024.
9. Histórico de Revisão
| Versão | Data | Descrição da alteração |
|---|---|---|
| 01 | 03/2026 | Elaboração inicial do documento |
Elaboração
Raul Yoshio Koga Filho
Médico intensivista pediátrico
Data: 03/2026
Análise/Revisão
Christiane De Souza Barreto
Médica Pediatra
Data: 03/2026
Ellen Karla Chaves Vieira Koga
NESPIH
Data: 03/2026
Validação
Flávia Suica Santos
Serviço de Qualidade
Data: 04/2026
Aprovação
Lycia Maria Diniz Mendonça Alves
Diretora Técnica
Data: 04/2026
