Aparência
Traumatismo Cranioencefálico (TCE) Leve em Pediatria
Documento oficial: DATCELEVEP
Tipo documental no original: Diretriz Assistencial
Emissão: 09/2016
Revisão: 09/2020
Próxima revisão: 09/2022
Versão: 02
Instituição: Hospital de Urgência de Sergipe — HUSE
Status no PAI: Migração fiel do documento institucional aprovado, preservando o conteúdo do original em PDF.
Definição
As definições do traumatismo cranioencefálico (TCE) variam de acordo com a idade devido aos seus mecanismos e apresentações.
O TCE menor é geralmente definido separadamente em crianças menores de dois anos de idade pelas seguintes razões:
- avaliação clínica é mais difícil;
- lactentes com lesões intracranianas são freqüentemente assintomáticos;
- fraturas cranianas ou lesão cerebral traumática clinicamente importante podem ocorrer apesar do trauma menor;
- a lesão por maus tratos ocorre com mais frequência;
- lesão axonal difusa (LAD): nenhum TCE leve;
- concussão: disfunção cerebral trauma induzida sem lesão demonstrável nos exames de imagem standard.
Fisiopatologia
- Lesão cerebral por aceleração-desaceleração rotacional da cabeça: força tosquiadora lesiva às fibras nervosas com lesão axonal difusa.
- Aceleração: ocorre quando um objeto em movimento atinge uma cabeça estacionária; lesões superficiais ou mais raramente hematomas intracerebrais; menos lesiva das forças.
- Desaceleração: ocorre quando uma cabeça em movimento atinge uma superfície estacionária; lesões severas no tronco cerebral quando ocorre de forma súbita.
- Rotacional: ocorre quando a cabeça é atingida de maneira assimétrica ou a criança é vigorosamente agitada; miscelânea de lesões, incluindo hemorragia subdural aguda (HSDA).
- Impacto direto: hemorragia extradural aguda (HEDA).
Epidemiologia
- 55% dos TCEs leves ocorrem em menores de 05 anos de idade.
- Entre crianças com TCE leve acima de 02 anos e exame neurológico normal:
- 3–7% com injúria cerebral traumática (ICT) na TC;
- 1% com lesões significativas;
- 0,1–0,6% de indicação cirúrgica.
- Principal causa de injúria cerebral entre 0 e 4 anos: queda.
- Principal causa de óbito entre 0 e 4 anos: acidente automobilístico.
Principais causas de TCE
- Quedas: 40,5%
- Acidente automobilístico: 14,3%
- Desconhecida/outras: 19%
- Assalto: 10,7%
- Contusão: 15,5%
Classificação
A classificação é dependente dos seguintes fatores:
- mecanismo de trauma;
- exame neurológico da admissão — Glasgow Coma Scale (GCS);
- natureza das lesões cerebrais associadas.
O TCE pode ser classificado em:
- Leve: 13 a 15
- Moderado: 10 a 12
- Grave: 3 a 9
A Escala de Coma de Glasgow descrita no documento institucional está disponível na Biblioteca Clínica:
👉 Abrir Escala de Coma de Glasgow — versão pediátrica/lactentes
Classificação de gravidade do trauma de crânio
| Classificação da gravidade do TCE | ECG e outros achados |
|---|---|
| Mínima | ECG = 15 sem perda de consciência ou amnésia |
| Leve | ECG = 14 ou 15 com amnésia transitória ou breve perda de consciência |
| Moderada | ECG = 9 a 13 ou perda de consciência superior a 5 minutos ou déficit neurológico |
| Grave | ECG = 5 a 8 |
| Crítico | ECG = 3 a 4 |
Aspectos clínicos
- Perda de consciência: < 05 seg = 1% com injúria cerebral traumática (ICT) significativa.
- Hematoma de scalp: potenciais para injúria cerebral traumática (ICT) em menores de 02 anos, não frontais, maiores de 03 cm e mecanismo de trauma considerável.
- Vômitos: são pouco frequentes, apresentando significado clínico quando ocorre mais de 02 episódios.
- Cefaleia: em criança entre 2–14 anos com injúria cerebral traumática (ICT) não tem significado clínico quando o sintoma é isolado.
- Crises convulsivas: até 4% de incidência.
- Fratura de crânio: 15–30% com fraturas lineares apresentam lesão encefálica traumática.
Diagnóstico
História clínica compatível
- alteração comportamental em menores de 02 anos;
- crise convulsiva, confusão mental ou perda da consciência;
- cefaleia severa ou piorando associada ou não a vômitos, que não melhora com uso de analgésicos;
- vômitos — risco de injúria cerebral traumática se progressivos ou mais de 2 episódios;
- queda acima de 1 a 2 metros.
Mecanismo de trauma: colisão de veículo em alta velocidade, mecanismo desconhecido, ejeção de veículo, mortos no acidente ou trauma penetrante.
Sintomas isolados não são indicativos de injúria cerebral traumática!!!!
Conduta do pediatra / abordagem
Por que não realizar Tomografia de crânio (TC) em todas as crianças?
- Risco estimado de câncer fatal em crianças que são submetidas a uma TC de crânio maior que no adulto devido à expectativa de vida maior e sensibilidade de alguns órgãos em desenvolvimento.
- Risco de câncer pela radiação de uma TC de crânio:
- 1:1500 em criança de 1 ano de idade;
- 1:5000 em criança de 10 anos de idade.
- Maior risco em menores de 5 anos com taxa de razão de incidência aumentado 0,16 para cada exame adicional.
Em menores de 2 anos de idade
Não realizar neuroimagem (TC)
Criança apresentando todos os sinais e sintomas abaixo:
- status mental normal;
- sem céfalo-hematoma parietal, temporal ou occipital ≥ 3 cm;
- sem perda de consciência > 5 segundos;
- sem evidência de fratura de crânio;
- comportamento normal, segundo o cuidador;
- sem mecanismo de trauma de alto risco.
Observar por 4 ou 6 h ou realizar neuroimagem (TC) se apresentar piora
- trauma não acidental;
- vômitos auto-limitados;
- perda de consciência incerta;
- TCE por mecanismo de alto risco;
- hematoma de couro cabeludo não frontal;
- fratura de crânio com mais de 24h;
- trauma não testemunhado;
- idade < 3 meses com mecanismo não trivial;
- história de letargia ou irritabilidade, mas normal no momento do exame clínico.
Realizar neuroimagem (TC) / Encaminhar ao especialista
- trauma não acidental;
- déficit neurológico focal;
- fratura de crânio/base de crânio;
- letargia ou irritabilidade;
- fontanela abaulada;
- vômito persistente;
- crise convulsiva pós TCE;
- perda de consciência >5 seg;
- alto risco pelo PECARN.
Em maiores de 2 anos de idade
Não realizar neuroimagem (TC)
Criança apresentando todos os sinais e sintomas abaixo:
- status mental normal;
- ausência de vômitos;
- sem perda da consciência >5 segundos;
- sem evidência de fratura de crânio;
- sem mecanismo de trauma de não alto risco.
Observar por 4 ou 6 h ou realizar neuroimagem (TC) se apresentar piora
- vômitos auto-limitados;
- perda de consciência incerta;
- TCE por mecanismo de alto risco.
Realizar neuroimagem (TC) / Encaminhar ao especialista
- déficit neurológico focal;
- fratura de crânio com afundamento ou fratura de base de crânio;
- letargia, discurso repetitivo, irritabilidade, agitação;
- vômito persistente;
- crise convulsiva pós TCE;
- perda de consciência >5 seg;
- alto risco pelo PECARN.
Internação hospitalar
- Paciente com alteração clinicamente importante na TC;
- paciente que não retornou ao Glasgow de 15 após o exame de imagem, independente do resultado desse exame;
- paciente com indicação de realizar TC, mas que por algum motivo não tenha condições de fazê-lo — não colaborativo, necessidade de sedação —, exigindo tempo de observação prolongada;
- persistência de sinais de alerta — vômitos, cefaleia intensa e refratária, etc.;
- alteração da coagulação;
- outras condições clínicas — intoxicação, descompensação de comorbidade, suspeita de maus tratos, etc.
Abordagem PECARN
PECARN — Pediatric Emergency Care Applied Research Network
Objetivo: identificar crianças baixo risco de ICT sem necessidade de TC de crânio.
O quadro PECARN descrito no documento institucional está disponível como componente independente da Biblioteca Clínica:
👉 Abrir PECARN — TCE leve pediátrico
Referências bibliográficas
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- BRENNER D. Estimated risks of radiation-induced fatal cancer from pediatric CT. Am J Roent. 2001; 176:289–296.
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- PEARDE, Mark S. Radiation exposure from CT scans in childhood and subsequent risk of leukaemia and brain tumours: a retrospective cohort study. Lancet. 2012 Aug 4; 380(9840):499–505.
Elaboração e aprovação
Elaborado por: Tiago Cavalcante
Colaborador: Vanise A. S. Parente
Revisado por: Tiago Cavalcante
Aprovado por: NESPIH
